Pré-concepção em psicanálise

Por Ale Esclapes1

Imagine que eu marco com amigos em um determinado horário em um determinado local. Eu, portanto, tenho uma “expectativa” de um encontro, de uma conversa. Agora vamos imaginar uma outra situação - o nascimento. Nesse momento, de algum modo, existe um “anseio” desse bebê em encontrar algo, alguma coisa que o acolha e o alimente.

Quando encontro amigos eu posso ter várias expectativas sobre como vai ser o encontro, mas o encontro em si não pode ser definido ou mensurado antecipadamente. Existem várias coisas que podem acontecer e com certeza ele não será igual ao que eu imaginava. Agora existe um ponto fundamental: voltemos ao exemplo do encontro: se você perguntar como cada pessoa experienciou o encontro, teremos um relato. Uma pessoa não consegue experienciar o todo do encontro.

“Pré-concepção é a existência de um desejo que aguarda uma realização. Ela representa uma premonição ... e é análoga à noção kantiana de "Pensamentos Vazios"”. Lopez-Corvo

Da mesma forma o encontro entre o bebê e sua mãe é inédito. Mas aqui uma diferença fundamental entre os dois exemplos: a mente do bebê não dispõe de linguagem para expressar seus anseios - estes são do período pré-linguagem. Pode-se dizer que nem imaginativamente ela consegue conceber o seu “anseio”.

Podemos dizer que tudo aquilo que aprendemos em psicanálise é um tipo de pré-concepção. E uma coisa é certa: podemos ansiar o encontro, mas não sabermos como ele será. E o que fazemos nessa situação? Um analista destreinado pode, por exemplo,  tentar fazer a experiência caber em sua expectativa. Pode desprezar a singularidade e o inédito da situação clínica em prol do que ele “já sabe”. Pode forçar uma interpretação que melhor se encaixe em sua teoria ou no material clínico, etc. Mas pode também se lançar ao infinito, rumo ao desconhecido.

 

 

 

 

¹Psicanalista, professor, escritor e diretor da Escola Paulista de Psicanálise-EPP e do Instituto Melanie Klein-IMK. Autor do Livro "A pobreza do Analista e outros trabalhos 1997-2015" e organizador da Coleção Transformações & Invariâncias. 

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